Raphael

Simplesmente Um Vira-Latas

©Fátima Irene Pinto



Procura-se um cão.

É imprescindível que não tenha nenhum pedigree.
Preferência para focinhos pretos e pelagem de cor indefinida.
Pode ser magro que, de tanto, tenha o contorno
do esqueleto exposto sob a pele.

Que seja capaz de encarar todas as pessoas com aquela inocente
confiança de cão abandonado, que nunca distingue quem vai lhe
dar um osso ou uma porrada, e mesmo assim, continua sendo
capaz de olhar amorosamente tanto para os que
o alimentam quanto para os que o escorraçam.

É preciso não ser muito preocupado com auto-estima.
Vira-latas que se prezam costumam não ter nenhuma porque
são poços profundos de desinteressado amor.

Há que ter um olhar terno quase suplicante, ser capaz de
olhar de soslaio e inclinar a cabeça choramingando,
toda vez que não entender alguma coisa ou ficar desapontado
por um pito que ele nem sabe se mereceu.

Deve ser ruidoso e estridente quando eu estacionar
o carro na garagem, em manifestação inconteste de satisfação
pela minha chegada e pela minha presença.

Há que saber brincar, esconder chinelos, arrastar tapetes
e correr desvairado quando livre na campina ou na praia,
por saber-me feliz e redobrar as peraltices,
pelo simples fato de notar que eu o observo.

Há que ter senso comunitário e assim, estender a sua
lealdade aos demais membros da casa e àqueles que
ele sabe que me são caros.

Até hoje eu criei gatos - alguns de raça.
Gatos são altivos, oportunistas, auto-suficientes,
embora muito belos e graciosos.
Tentei (em vão) aprender com eles a lição máxima da auto-estima.
Gatos são exímios na arte de se vender caro.

Agora eu procuro um vira-latas - talvez nem tenha que procurar -
não só como amigo, mas como instrutor.

Quero assumir as virtudes que nele sobejam como a transparência,
a ressonância, a espontaneidade e, acima de tudo, a capacidade de
amar incondicionalmente, mesmo quando escorraçado.



Fátima Irene Pinto
Texto dedicado a Sultão, o Vira-Latas da minha infância.
Direitos Autorais Protegidos
Copyright©2002




Foto acima: Raphael
Abandonado com 2 meses de idade, foi recolhido pela UIPA
:
União Internacional Protetora de Animais
Lá foi adotado por Silvia Schmidt, em 1999.




"Quem nunca teve um cão nunca foi amado incondicionalmente"
S i l v i a  S c h m i d t




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